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15 de Dezembro de 2018

O que chamam de greve, eu chamo de antiético

Marcelo Mendes, Bacharel em Direito
Publicado por Marcelo Mendes
há 6 meses

Em 21 de maio de 2018 se iniciava o movimento organizado dos caminhoneiros, algumas foram as reinvindicações postas na pauta que mais tarde seria levada ao Governo, com um especial destaque àquela que exordiou o prélio e aliciou vontades: a reação à constante alta no preço dos combustíveis.

À medida que os dias passavam, novas petições surgiram, sem que fosse perdida de vista a causa que deu início ao movimento. Em comum, todos os requerimentos possuíam um viés classista, já que os beneficiários imediatos e diretos das concessões seriam os caminhoneiros, empresários do ramo e entidades representativas. E nem se alegue a utopia do efeito cascata (v.g. diesel acessível, gêneros também acessíveis).

Ainda assim, não se há dúvida de que os interesses tencionados foram nobres. Dúvida também não paira sobre o direito de greve, que é garantia inalienável do homem, já que se este o faz, fá-lo em salvaguarda de seu meio de subsistência e autoestima, o trabalho. Ocorre que, no caso em apreço, o que chamam de greve, eu chamo de antiético.

Uma greve só mantém sua legitimidade quando realizada em sintonia com a lei e com alguns valores éticos, e um desses valores, de qualificada importância, pois também está positivado, foi violado. Não foi posto na pauta o respeito à autonomia da vontade alheia, isto é, da liberdade individual de aderir aos interesses defendidos, ou não.

O que houve nesse movimento foi uma incontestável ação forçada, pensou-se que obstaculizar as vias, impedindo a passagem de qualquer veículo, não importando o bem da vida que este carregasse, estava incluso no direito perseguido. É verdade que em um determinado momento a bens essenciais, como medicamentos, foi permitida a passagem (como se em momento passado tivesse sido justo impedi-los).

E tão ruim quanto isso foi o engodo levado a efeito. Bradavam os caminhoneiros que se lutava pelo povo, que todos os empresários deveriam temporariamente suspender suas atividades, e com seus empregados ir às ruas, era uma luta de todos, para todos e por isso deveria ser composta por todos.

Falácias, perseguiam-se proveitos próprios, os quais, uma vez atendidos, restaurava-se o status quo. Não se pedia pelo fim das excessivas cargas tributárias, pelo fim da corrupção institucionalizada, pela derrubada dos privilégios ou pela liberdade do povo, escravizado de há muito pelo Governo, pedia-se, reitero repto, pelos interesses de uma classe, e todas as consciências desavisadas e ingênuas sucumbiam à sofisticada eloquência, dos que simplesmente ficaram sem combustível aos mais lesados economicamente.

Em suma, todos juntos pela supressão dos tributos no diesel, mesmo sabendo que a concessão governamental seria de algum modo recobrada. Não se pode olvidar dos serôdios e infelizes segmentos que surgiram pela derrubada do Chefe do Executivo, pela intervenção militar e até mesmo pelo #lulalivre. A bem da verdade foi o que permaneceu obstinado após o Governo ter atendido aos desígnios principais dos caminhoneiros.

E, enquanto o povo se mobilizava, o caos se instalava, o desabastecimento era geral, as prateleiras dos mercados vazias ou reduzidas, os produtos limitados por pessoa, os postos sem combustível, os hospitais cancelando cirurgias, as universidades dispensando alunos, os homens do campo, ah, os homens do campo (suinocultores, avicultores, granjeiros em geral), esses acumulavam prejuízos irreparáveis, e continuam neste dia e até que a normalidade seja restaurada.

Milhões de aves morrendo dia após dia, suínos recebendo alimentação insuficiente, a economia, já precária, ruindo com ímpeto, importações e exportações milionárias deixando de ocorrer, grandes e pequenas empresas perdendo diariamente vultosos valores, sessões de hemodiálises reduzidas devido à falta de insumos, isso sem falar dos danos ambientais que decorreram. O caos estava instalado, mas o combustível era mais importante.

Portanto, resta inconteste que houve uma desproporcionalidade monstruosa entre os reclamos e o modos operandi para tê-los atendido, de modo que a máxima os fins não justificam os meios foi reafirmada. Até porque se todos assim fizessem por seus interesses, não sobraria população.

Por fim, solidarizo-me com a coletividade, e aqui se incluem os caminhoneiros enquanto parte dessa coletividade, não como entidade corporativista. Isso porque os danos deliberados que o movimento originou feriram a ética social, e isso é inadmissível em uma sociedade civilizada, onde o metódico deve sobrepor-se à brutalidade.

Aos caminhoneiros: muito do que vocês transportam, em essência, foi plantado, cultivado, colhido, tratado, alimentado, cuidado e transformado por camponeses, esses que foram esquecidos por vocês. Sem prejuízo de outras classes de trabalhadores que também lhes garantem a carga.

1 Comentário

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Os caras pediram mais Estado, ganharam tudo, repassaram a conta para o cidadão e ainda são visto como heróis nacionais. Os caras são uns gênios... continuar lendo